ENTREVISTA

A imprensa informal é a imprensa democrática?

Fui entrevistado pelo Canal da Imprensa para uma matéria sobre formas alternativas de imprensa e seu impacto na população e nos veículos convencionais. A íntegra de minha entrevista você encontra aqui.

Canal da Imprensa - O que acha de jornais abertos, como oBrasilwiki, onde qualquer pessoa pode ser um repórter?

Mario Persona - Embora entenda que hoje cada pessoa possa ser um repórter, por estar às vezes mais próxima do fato e ter ferramentas à mão, não é exatamente no sentido de um site oficial de notícias informais que costumo me referir ao assunto. Com o tempo sites assim talvez consigam criar uma linha editorial, filtrando seu conteúdo, porque é preciso que qualquer jornal, informal ou não, tenha sua personalidade própria, ou não irá atrair leitores.

Quando você cria uma marca e um site, deve ter alguém que responda por isso. Na Wikipedia, embora exista essa democratização da informação, existe uma linha editorial, há pessoas constantemente vigiando e corrigindo os textos publicados, ou mesmo removendo. Obviamente não é uma democratização no sentido anárquico da palavra. 

A Wikipedia criou e estabeleceu uma personalidade, que está mostrando ser bem-sucedida, apesar de muitos enganos que são publicados ali. Mas as melhores enciclopédias sempre precisaram passar por revisões e reedições periódicas porque a informação que se tem sobre algum assunto é sempre parcial, nunca absoluta.

Mas isso não me parece ser tão fácil quando você cria um"espaço democrático" genérico para notícias, porque ali as matérias são assinadas e ninguém gostaria que outro se intrometesse no assunto que escreveu. Enquanto isso, por ser um espaço aberto, mas ao mesmo tempo por querer dar uma imagem de imprensa séria, a coisa acaba confundindo o leitor.

Posso entrar, ver aquilo tudo com cara de jornal sério, e ler uma matéria que alguém escreveu lá do interior da selva amazônica dizendo que descobriu uma civilização de homens verdes morando debaixo da terra. Como não posso ir até lá conferir, posso ser enganado, e como as pessoas que mantêm o site também não podem fazê-lo, isso continuará lá. 

Além disso, há um problema de responsabilidade, pois ainda que um site deixe claro que não é responsável pelo que está lá, que isso é de responsabilidade individual de cada um, a coisa poderá até parecer plausível para o caso de um serviço que forneça apenas a tecnologia, como acontece no Blogger, Yahoogrupos, Orkut, YouTube e outros. Mesmo assim estamos vendo o tempo todo problemas que esses serviços têm com a justiça, precisando se defender, já que não têm controle sobre o que é publicado lá.

Mas não acredito que será tão simples explicar a um juiz que o provedor dos serviços não pode verificar tudo o que é publicado, quando é colocado explicitamente que existe uma equipe editorial verificando o que é publicado e impedindo de publicarem coisas impróprias, como acontece nesses sites que se colocam como jornais democráticos para qualquer um ser repórter-cidadão.

Isso já não ocorre em uma enciclopédia, do tipo da Wikipedia, onde o objetivo não é publicar fatos novos (embora eles também sejam publicados lá), mas um conhecimento que pode ser facilmente conferido em enciclopédias normais ou mesmo nos jornais.

A mesma informação dos homenzinhos verdes, lançada em uma lista ou fórum de discussão teria um caráter diferente. Todos saberiam que o fórum é apenas uma interface tecnológica (pode ser um Yahoogrupos, por exemplo) e que aquela é uma opinião puramente pessoal de quem a assina, e não a opinião do Yahoogrupos como um todo. Não existe uma "marca de jornal" dando sustentabilidade ao fato. 

A mesma informação, publicada em um blog pessoal, teria o mesmo caráter. Seria a informação do fulano em seu próprio blog, portanto posso crer que se trate de um mito, de uma invenção, ou posso acreditar piamente no que ele diz, mas estou lendo um diário pessoal, não um jornal, que tem o papel de ser o rascunho da história.

O problema não está na democratização da publicação, algo que a tecnologia já garantiu a qualquer cidadão, mas na forma como isso é feito. Sempre que alguém tenta copiar velhos modelos para encaixar neles uma nova prática, pode se dar mal. Vou dar um exemplo. 

Quando criei a TV Barbante em meu videolog fiz questão de mostrar que era algo feito amarrado com barbante, como costumamos dizer de algo precário. Uma TV de brincadeira, de vídeos caseiros feitos com câmeras de brinquedo. Quis deixar bem claro que não era uma Globo, que não tinha sequer a pretensão de ser uma produção de TV independente convencional. Minha TV Barbante é o cineminha que eu fazia em caixa de sapatos, com tirinhas de gibi, pedaços de cabo de vassoura e cola de trigo, e agora faço na Internet.

Vi algumas pessoas que também criaram suas próprias TVs usando a tecnologia da Internet, mas partiram para um formato mais profissional, formal, com aquela salinha de entrevistas, entrevistando algum empresário com toda a pompa e formalidade que você encontra em um programa de entrevistas na TV normal. Algumas até ousam uma vinheta em 3D na abertura etc. Sabe o que parece? Uma caricatura da realidade, porque ninguém irá esperar que, numa telinha do tamanho de um selo dos Correios, você consiga reproduzir toda a qualidade de uma TV profissional feita em um estúdio com dezenas de pessoas trabalhando. 

Alguns estúdios até me procuraram, propondo fazer isso com minha TV Barbante, por não entenderem minha proposta. Consideram mal feito, precário e sem profissionalismo e queriam "passar a limpo" meu trabalho. Oras, é o precário que me propus fazer, já que não sou um profissional de TV. Se ler minhas crônicas e a maneira como escrevo em meu Mario Persona CAFE verá também que não sou um profissional de imprensa. É outra linguagem, é outro propósito, é outra forma de comunicação. Não é imprensa formal e nem pretende ser, porque não é este o meu negócio.

A democratização da informação deve seguir seu rumo assim mesmo, com gente comum escrevendo errado aquilo que pensa em seus blogs e outros canais, porém deixando claro que aquilo é uma linguagem nova, que não existia há vinte anos e que não está ali para concorrer com a imprensa tradicional, ainda que esteja roubando dela aqueles que buscam por algo novo. Esses novos formatos concorrem, no máximo, com os antigos jornais de poste e discursos feitos sobre um caixote na praça.

Enquanto isso, a imprensa convencional deve seguir seu rumo, porém cada vez mais descobrindo que existe agora uma mídia alternativa correndo na raia ao lado, a qual ela às vezes irá querer copiar, mas não conseguirá por lhe faltar espontaneidade e flexibilidade necessárias para correr riscos.

Com o tempo o público aprenderá a filtrar as coisas e saber que não podemos acreditar em tudo o que vemos ou lemos por aí, seja isso informal ou vindo de uma imprensa tradicional. Nestes novos tempos, não é a informação que terá valor, mas o discernimento e capacidade de julgar de cada um. Falei sobre isso numa entrevista que dei a uma revista:

"Há alguns anos informação significava poder. Hoje, a inteligência da informação ou a capacidade de discernir essa informação é o que realmente importa. Estamos mergulhados de tal maneira em informação, que já não precisamos nos preocupar em saber. Precisamos sim nos preocupar em discernir. No passado alguém poderia ser louvado por ser uma enciclopédia ambulante, saber um milhão de coisas. Hoje isso seria o mesmo que encher um hard-drive de spam ou e-mails não solicitados. Pode parecer muita coisa, mas se filtrar não sobra nada.

"O excesso de informação pode atrapalhar o profissional, principalmente pelo número de possibilidades que hoje temos de acessar e sermos acessados. Estamos passando por um momento de transição, quando o que importa é saber filtrar informações, saber onde procurar e como encontrar, e também dispor de mecanismos para evitar o acesso constante. Também é um momento para aprendermos a lidar com o excesso de opções e começarmos a descartar o descartável."





Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Veja emwww.mariopersona.com.br 

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