ENTREVISTA

ORATÓRIA - COMO PERDER O MEDO DE FALAR EM PÚBLICO

Fui entrevistado pelo Rudge Ramos Jornal para uma matéria sobre oratória e o medo de falar em público. A íntegra da entrevista você encontra aqui.

Parte 1

Parte 2

Parte 3


P. O que leva uma pessoa a sentir medo de falar em público?

Mario Persona -
 O medo de falar em público vem principalmente do medo de se expor. É algo instintivo. Se você reparar, nos restaurantes as mesas próximas às paredes costumam ser as primeiras a serem ocupadas. O ser humano instintivamente procura um lugar onde tenha menos chances de ser atacado, e isso acaba se revelando em boa parte de nosso modo de ser, inclusive na hora de falar em público.

Colocar-se diante de uma audiência, exposto e de mãos vazias, é a morte para algumas pessoas. Todos os seus medos vêm à tona. Será que meu cabelo está bom? Será que minha calça não está com o zíper aberto? A barra da calça ou da saia está baixa ou alta demais? Cadê a voz? Então, antes mesmo das pessoas da audiência começarem a pensar em julgar você, é você mesmo quem passa a fazer uma análise crítica de sua postura e apresentação. Pessoas que exigem mais de si sofrem mais numa hora assim.

Resumindo, o medo de se expor pode criar o desastre que a pessoa estava querendo evitar. Muita gente passa horas preparando o que vai falar, quando deveria passar bons momento se preparando para falar. São coisas distintas. O que você vai falar é seu conteúdo, mas se você não estiver emocionalmente preparado, de nada adiantará ter uma pasta cheia de genialidades para apresentar.

P. Quais os sintomas mais comuns?

Mario Persona -
 O mais temido é o branco mental, aquela sensação de que você esqueceu tudo o que tinha preparado para falar. A isso você pode acrescentar a sudorese excessiva, sensação de calor nas têmporas, mãos e joelhos trêmulos, coceiras, gagueira, dificuldade de coordenação motora e até cãibras. Às vezes acontece um inchaço da língua, como se você tivesse comido uma colher de sal, e uma secura na boca que não passa mesmo que tome um litro de água. Tudo isso é receita para o desastre, e geralmente basta você se dar conta de que está experimentando um dos sintomas do medo para todos os outros pegarem você como uma enxurrada apavorante.

P. É possível superar o medo? Como?

Mario Persona -
 Sim, há técnicas para superar o medo. A receita é simples: de que você tem medo? De se expor. Por que o medo de se expor? Medo de que as pessoas vejam em você o que você não gostaria de mostrar. O que não gostamos de mostrar? Nossas falhas, incapacidades, erros, defeitos etc. Pronto, aí está a raiz do medo, que é ser inferiorizado, ridicularizado, visto como incapaz. Não foi sempre assim a vida toda, desde os primeiros contatos com outras crianças na escola? Não era assim na sala de aula, quando éramos vistos como o pior aluno, o mais feio, o mais bobo etc.?

Bem, sabendo que o problema está em ter nossos defeitos revelados em público, o remédio é se antecipar ao público e revelá-los logo de cara. Todo palestrante sabe que uma técnica eficaz de ganhar logo a atenção e simpatia do público, e também de sentir-se seguro, é fazer pouco de si mesmo. Você sobe no palco de saltos altos e as pessoas logo percebem. E mesmo que não o faça, muitos na audiência estarão se perguntando: "O que esse cara sabe que eu não sei? O que ele pensa que pode me ensinar? Quem é ele para estar no palco e eu aqui sentado?".

Antes que a audiência massacre você em pensamento, o melhor mesmo é você partir para o auto massacre contando alguma história engraçada a seu respeito. Pode ser aquela vez quando bateu a cabeça no poste por andar olhando para trás, ou quando deu um fora descomunal diante de uma pessoa importante. 

Pense assim: antes de começar a falar sobre o assunto que deve apresentar, dê ao seu público uma sessão vídeo cacetadas na qual você é o autor principal. Isso criará em você a transparência necessária, você vai se virar no avesso diante daquele público, e criará no mais ferrenho crítico da plateia a ideia de estar diante de um completo idiota. Não se preocupe, na sequência você surpreenderá essa pessoa com suas sacadas inteligentes e não precisará mais temer o escrutínio da audiência. Se você já revelou suas falhas, que falhar maiores que essas aquelas pessoas poderão descobrir?

P. O que é indicado às pessoas que tem medo de falar em público?

Mario Persona - 
Além de começar fazendo pouco de si mesmo, é bom evitar logo de cara ficar desfiando um currículo de Einstein. Entenda que a técnica é você criar reconhecimento pelo conteúdo de sua fala, e não tentar dar credibilidade a ela com seus títulos. Se a pessoa parou para ouvi-lo é porque ela deixou de fazer algo por achar que você tinha coisa importante para dizer. Não é preciso tentar provar isso com títulos, mesmo porque títulos tendem a aumentar a distância de seu público, a fazer com que alguns comecem a desconfiar de sua capacidade ou até se sentirem constrangidos e diminuídos na sua presença. Não é isso que você quer. Você quer se rebaixar na presença de seu público, para depois deixar que o seu público exalte você pela sua capacidade. 

Se você tem um currículo invejável, deixe para apresentá-lo ao longo de sua fala, contando casos do tipo "Quando estive numa reunião com o presidente dos Estados Unidos, ele me disse: Mario, quero que você saiba que..." Veja, você não desfilou um currículo do tipo "Esteve com o presidente dos Estados Unidos" já de cara na sua apresentação, mas apenas mostrou isso de forma sutil e integrada ao seu assunto. O modo de fazer isso também é importante. Reparou que eu incluí meu nome na fala do presidente, como se fosse íntimo ao ponto de ele me chamar pelo nome?

P. Esse medo atinge as pessoas sempre da mesma forma, ou pode variar?

Mario Persona - 
Pode variar de pessoa para pessoa, mas também de situação para situação. Eu já encarei plateias sem medo algum e já me apavorei em outros momentos. Depende muito também do momento em que você está passando em sua vida, pois você poderá estar mais ou menos fragilizado por problemas interiores, e isso acabará se revelando no momento de estresse que é uma apresentação pública. 

O melhor mesmo é que você nunca perca totalmente o medo de falar em público, porque é justamente o medo que concede uma certa cor à sua fala, e que também proporciona a adrenalina que você precisa para ser convincente. Atletas não batem recordes em treinos, mas nas competições, quando o medo atinge o ápice, o público grita cobrando desempenho e ele tem tudo a perder. Aí a adrenalina gerada pelo medo se torna uma aliada para ele vencer. Sem medo ele teria uma apresentação medíocre, mas com medo dá um show de capacidade. 

O problema então não é exatamente o medo, mas como você utiliza o medo. Um cavalo manso tem a mesma força de um cavalo selvagem. A diferença é que o manso aprendeu a direcionar sua força para o trabalho, enquanto o selvagem não. O primeiro é capaz de puxar uma carroça carregada, enquanto o segundo usará sua força para destruir a carroça e se machucar no processo.

P. Quem tem medo, geralmente, procura ajuda?

Mario Persona - 
Deveria procurar, pois há alguns exercícios que ajudam a perder o medo de falar em público. Coisas simples, como aprender a se expor, como usar as mãos, correção de problemas de postura e até muletas. Sim, há pessoas que precisam de uma muleta para falar em público, assim como conheço um ex-gago que curou sua gagueira aprendendo a dar um estalido com a língua sempre que vai gaguejar. 

Há pessoas que só conseguem falar em público se estiverem segurando em algo, então não há nada de mais você fazer sua apresentação segurando uma caneta, ou talvez com uma mão no bolso agarrada a um clipe de papel ou a uma moeda. Ninguém vê, mas você sabe que ali estará seguro. Conheço um palestrante que só faz palestra se tiver um púlpito, com o qual ele mantém contato o tempo todo de sua fala. É sua muleta, mas poucos percebem isso. Mas é melhor do que alguns que improvisam a muleta, e acabam arrancando o botão da camisa de tanto mexer nele.

P. A autoestima é importante para um bom discurso?

Mario Persona -
 Existem algumas técnicas para dar segurança que têm a ver com autoestima. Uma é imaginar o público pelado e só você vestido. Não sei se funciona, mas pode ajudar. O mais importante é surpreender, porque quando surpreendemos desarmamos as pessoas. Por isso gosto de começar minhas palestras falando mal de mim, porque essa é a última coisa que a plateia iria esperar: o palestrante fazer uma autocrítica, se mostrar incapaz, se apresentar como inapto ou até idiota o suficiente para dar com a cabeça em um poste.

Então, com seu público ainda atordoado pela surprese, você aproveita para entrar batendo. No filme "Do que as mulheres gostam", a atriz Helen Hunt preside sua primeira reunião com a equipe na agência que acaba de contratá-la. Ela se diminui logo ao entrar, abaixando-se para pegar um lápis no chão, derrubado justamente pelo seu adversário e candidato frustrado à vaga que ela preencheu. Então ela dá um sutil sinal de que está ali para trabalhar, tirando o casaco e jogando-o sobre uma poltrona. 

Ao ser apresentada pelo diretor da agência, ela se diminui dizendo que por duas vezes tentou trabalhar ali, que aquela agência era o seu sonho, que ela não merece etc e tal. Então, numa virada surpreendente ela desce a lenha na agência dizendo que ninguém contrataria aquela agência se quisesse vender produtos para mulheres. Enquanto desfiava um rosário de elogios à agência e às pessoas dali, e ao mesmo tempo se diminuía, ela desarmou sua audiência para surpreendê-la com uma crítica feroz. Mas aí ela já tinha partido para o ataque e levava vantagem suficiente para ter a audiência em suas mãos.

P. Como manter o foco na hora de falar?

Mario Persona - 
Um dos grandes pavores de se perder o foco é esquecer sua fala ou parte dela. O melhor neste caso é começar falando de coisas que você falaria até dormindo. Fale da família, dos filhos, de seu hobby, do time do coração, de seu artista preferido ou conte uma história da infância, que seus filhos estão cansados de ouvir, mas que é inédita para aquele público. Procure deixar sempre nessa introdução um gancho para seu tema, porque assim a introdução inesquecível servirá de prefácio para sua fala esquecível. É como fazer o carro pegar no tranco. Depois que começa, fica tudo mais fácil.

Em uma cena do filme "Encontrando Forrester", o garoto que quer ser escritor é instruído pelo escritor famoso, interpretado por Sean Connery, a copiar o início de um texto impresso e a partir daí começar a escrever por si mesmo. A técnica é essa: você começa com algo fácil e usual e depois as ideias vão surgindo. O perigo fica por conta de esquecer algo e tentar lembrar enquanto fala. Não faça isso. Se esquecer, o público jamais irá saber que faltou aquilo, só você. 

Ter uma cola também ajuda. Podem ser pequenos cartões com tópicos, que você segura com as duas mãos e vai seguindo. Lembre-se de que tudo o que você precisa são tópicos, e não textos inteiros. Jamais fique lendo textos durante sua palestra. Hoje, com a tecnologia do email, você poderia ter enviado os textos para seus ouvintes evitando que perdessem tempo de irem ali escutar você. Geralmente todos em sua audiência sabem ler, não é mesmo? Não precisam de você para isso.

Evite também segurar folhas de papel com sua cola, porque folhas de papel amplificam sua tremedeira e a tornam perceptível. Pequenos cartões não fazem isso. Se puder usar uma apresentação em PowerPoint como sua cola, melhor ainda. Mas lembre-se: tópicos apenas, e não textos longos e muito menos aqueles efeitos mirabolantes e profusão de diferentes fontes que irritam qualquer audiência.

P. Como ter segurança e se preparar para falar em público?

Mario Persona -
 A preparação maior da pessoa que fala, não do que a pessoa irá falar. Se você não estiver bem, seu conteúdo sairá péssimo ou nem sairá. Portanto, o melhor mesmo é reservar alguns momentos para relaxar e pensar em outra coisa antes de se apresentar. O excesso de concentração no que pretende falar pode ter um efeito inverso, e você acabar se esquecendo de tudo bem na hora da apresentação. Portanto, mais importante do que preparar o que falar, você deve preparar quem vai falar. Ou seja, você.

Entrevista concedida ao Rudge Ramos Jornal em 14/04/2011 .

Entrevistas como esta costumam ser feitas para a elaboração de matérias, portanto nem tudo acaba sendo publicado. Eventualmente são aproveitadas apenas algumas frases a título de declarações do entrevistado. Para não perder o que eu disse na hora da entrevista, costumo gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra do que foi falado você encontra aqui. Se achar que este texto pode ajudar alguém, use o formulário abaixo para compartilhar.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Veja emwww.mariopersona.com.br

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS

Com seu estilo inconfundível, o palestrante Mario Persona transforma grandes questões em conceitos simples e de fácil compreensão para qualquer audiência.

Um fino senso de humor e talento de cronista, aliados à experiência empresarial, lhe permitem extrair do banal o extraordinário e transformar "causos" corriqueiros em analogias perfeitas para a vida, carreira e negócios.

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