ENTREVISTA

Entrevista: Ousadia em Novos Negócios

Fui entrevistado pela Revista Empreendedor para uma matéria sobre "Ousadia em Novos Negócios". A íntegra da entrevista você encontra abaixo.

Revista Empreendedor - A ousadia e o arrojo empresarial estão fora de moda no Brasil?

Mario Persona -
 A ousadia sempre esteve em voga no Brasil. O brasileiro é ousado por natureza. Não aquele ousado metido a valente, truculento, mas o ousado ladino, manhoso. Não falo do ousado esperto, pois esta palavra pode caracterizar uma postura anti-ética, mas do ousado sedutor, que é seduzido pela própria ousadia que o move. É por isso que ele consegue ser ousado até nas condições mais imprevisíveis de mercado.

Revista Empreendedor - Na sua opinião, De que maneira os aspectos macro econômicos interferem no ímpeto dos empreendedores brasileiros?

Mario Persona -
 Acho que o brasileiro está começando, devagarinho, perder aquela característica colonial, que espera que alguém -- governo, patrão, mercado, situação política, colonizador -- lhe dê a mão. Não estaríamos falando de ousadia e ímpeto se vivêssemos em condições ideais de temperatura e pressão. Ao contrário, é quando as vendas congelam e os custos esquentam, quando a pressão interna e externa aumentam, que é possível detectar exemplos de ousadia e empreendedorismo. Ser empreendedor quando tudo vai bem e temos um investidor derramando benesses é fácil. 

Li em algum lugar do exemplo do marinheiro, que não culpa o mau tempo por suas dificuldades. Ele sabe que não pode mudar a força do vento e as ondas do mar, portanto concentra-se naquilo que pode mudar, a posição do barco, das velas, o rumo, e vai desafiando os elementos com sua perícia. Isso é ousar, isso é empreender. Quem perde muito tempo reclamando das ondas vê o barco afundar e nem a ver navios consegue ficar. 

Revista Empreendedor - Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos empreendedores que tem a ousadia como arma nos negócios?

Mario Persona - 
Se você considerar que a ousadia é irmã da adversidade, assim como a necessidade é mãe da criatividade, vivemos em uma família muito profícua chamada Brasil. Porque necessidade e adversidade é o que não falta. Eu diria que a maior dificuldade enfrentada pelo empreendedor é ele próprio. Ninguém consegue empreender se ficar olhando para o vento contrário. Ou se deixar de confiar que consegue dar um passo além do fim do fôlego.

Outro dia um amigo contou de um jardineiro que teve há poucos anos. O ex-jardineiro hoje está milionário, não por ter ganho na loteria ou coisa assim. Começou uma pequena indústria que deu certo e num curto espaço de tempo saiu do nada para um patrimônio considerável. Ué?! Mas o que ele fez com a crise? Como conseguiu driblar taxas de juros, desemprego, blá, blá, blá? Ora, ele provavelmente nem sabia que essas coisas existiam, tão iletrado era o pobre rapaz. Simplesmente empreendeu com o que tinha e nas condições em que vivia. Nem para sua condição de pobre e sem estudos ele olhou, o que dirá das condições políticas e financeiras do Brasil ou do mundo. Acho que só hoje ele sabe que essas coisas existem.

Revista Empreendedor - Para o senhor, qual é a relação entre a vontade de correr riscos com a estratégia e as decisões de uma empresa?

Mario Persona - 
Não há crescimento sem risco, como não há passo sem desequilíbrio. Nosso andar é um contínuo desequilíbrio, quando tiramos um pé do chão enquanto jogamos o corpo para a frente confiando que o outro pé chegue lá a tempo de amparar a queda. E assim caminhamos. Sou um pouco cético em relação a estratégias de longo prazo em mares revoltos. É claro que toda empresa precisa ter uma meta, mas esta não pode jamais impedir desvios estratégicos. 

Acho que depois de tanto blá-blá-blá sobre planejamento estratégico, devíamos ter uma temporada de “desvio estratégico”, não acha? O bom navegador não tem a estratégia como fim, mas o destino. Como chegará lá é problema do momento. Quando a estratégia passa a ser um fim em lugar do meio, então nos sentimos protegidos dos riscos de apelar para desvios momentâneos e provisórios. Daí o risco de se desenvolver uma estratégia para evitar riscos. 

Quando há disposição para se correr riscos, há também liberdade para a intuição, já que a gestão passa a ser semi-divorciada de um projeto rígido. Qualquer um sabe que a sobrevivência em situações extremas depende muito mais da intuição e criatividade do que da razão. Porque a razão se baseia em dados pré-armazenados e de alguma maneira relacionados ao problema, enquanto a intuição aproveita, não dados, mas experiências que podem não ter absolutamente nada com aquela situação em particular. A intuição empresta seus dados da emoção, da fantasia, da paixão e os transforma em uma vitamina batida no liquidificador da criatividade. O produto final pode não ter muito de sólido e palpável, mas pode ser o líquido e certo que se necessitava para o momento.

Revista Empreendedor - Quais são virtudes que um empreendedor deve ter para executar o inesperado com sucesso?

Mario Persona - 
Acho que é esperar pelo inesperado.Não digo de viver uma vida de medos, mas justamente o contrário. Estar sempre ciente de que as coisas podem dar errado a qualquer momento. É mais uma questão de ter o humor preparado para não te o amor abalado. Aí a paixão não se desfaz, ainda que os golpes deixem marcas. E, por falar em marcas, quem é que não sente uma pontinha de orgulho quando mostra cicatrizes de dificuldades passadas? São elas que nos ajudam a enfrentar as futuras. Taí outra virtude, enxergar a coisa toda de cima, ver o passado e o futuro sem tirar os pés do presente. Há um ditado que diz que você não conseguirá ler o rótulo se ficar sempre dentro da garrafa. De vez em quando é preciso sair do problema e olhar de fora. Acho que esta também é uma virtude a ser cultivada por quem quer empreender.

Revista Empreendedor - Decisões ousadas dentro das empresas ocorrem devido a oportunidades que surgem no mercado ou por necessidade de sobrevivência. Na sua opinião, em qual das duas situações isso ocorre com mais freqüência entre as empresas brasileiras?

Mario Persona - 
Eu diria que temos aí uma terceira causa de decisões ousadas, e tem a ver com a intuição. Às vezes você não tem nem o mercado, nem a adversidade para impulsionar ou desviar seus passos, mas você tem simplesmente a intuição de que deve ir por ali. É claro que ninguém ainda inventou um aparelho para distinguir o que é intuição e o que não passa de vontade própria, teimosia ou burrice pura, portanto estamos em um terreno onde a mais ousadas das ousadias, se me permite exagerar assim, é aquela baseada na intuição. Depois vêm as decisões em razão das oportunidades de mercado e, finalmente, aquelas tomadas por questão de sobrevivência. Esta ordem eu coloquei segundo o grau de ousadia. Se quiser por ordem de ocorrência, é só inverter.

Revista Empreendedor - Cite um caso de ousadia empresarial que o senhor lembra na história da economia brasileira ou nos dias de hoje?

Mario Persona -
 Um caso muito bom é o da filosofia que Antonio Guerreiro implantou na Rockwell na década de oitenta. Chamava-se "O Poder da Camisa Branca"® era tão criativa e revolucionária que acabou sendo implantada em várias fábricas do grupo em todo o mundo. Era uma forma de incentivo à gestão participativa, que dava dignidade ao operário do chão de fábrica e transformava a qualidade do homem, não a qualidade do produto, em meta. A parte visível do processo era a adoção de uma camisa branca por cada operário, que passava a se preocupar com a qualidade do que fazia ao tentar evitar sujar a camisa. E, quando sujava, estava contribuindo para criar um referencial de falhas e soluções. O Antonio Guerreiro Filho tem um livro com o título "O Poder da Camisa Branca"®. Vale a pena ler.



Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Veja emwww.mariopersona.com.br

  

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